CONTO: UMA HISTÓRIA SOBRE A GUERRA DAS CASAS

UMA HISTÓRIA SOBRE A GUERRA DAS CASAS



Qual foi a pergunta mesmo, meu jovem? Se eu vendi a minha alma? Vendi. Eu acho. Assim, não teve um contrato. Não sei se tem. Eu apenas tinha lido em um livro e visto algumas runas quando invadimos a base de um culto maligno. Eu ainda era jovem quando entrei no bando de Roni Vigul. Vigul queria mais do que combater casas e nobres. Combatíamos eles todos, desde que pela quantia certa. Mas para Vigul, era pouco. E ele começou a caçar cultistas e bruxos. Foi mais ou menos nessa época que eu entrei no bando.



O bando tinha bons soldados, mas um se destacava pela agilidade e letalidade de seus golpes. Diin parecia dançar quando empunhava suas cimitarras num ritmo mortal, como se os confrontos não lhe oferecessem riscos. Sua fama de assassino já se espalhava entre os bandos, mas Diin era mais do que uma arma. Diin era o braço direito de Vigul. O conselheiro de guerra, de ações, de alvos. Não foi atoa que Diin, com sua forma magra e forte, usando capa branca que contrastava com sua pele negra, com uma voz baixa e serena, se tornou conhecido como Morte Gélida.

Aos poucos fui me tornando mais importante no bando. Tinha velocidade, era bom negociador e utilizava com precisão minha espada curta. Cavalgava como poucos. Mas o que primeiro chamou a atenção dos líderes para minha presença era a gaita que eu tocava naquelas noites frias, em meio a vastidão das pradarias. Logo reparei que Diin havia me notado. E estremeci. Não queria Morte Gélida com os olhos em mim. Mas foi o que aconteceu. Dois anos se passaram e me encontrava abaixo apenas de Diin e Vigul no bando. Vigul dividiu o bando em dois. Eu e Diin cavalgamos pelo sul para surpreendermos o bando do lendário Dom Luis de Vale Fundo, enquanto Vigul liderava um ataque direto. Vigul já servira no bando de Dom Luis, o maior bando entre Campina Dourada e Largo das Cinco Luas, e conhecia suas táticas. Mas não estava preparado para uma traição. Um jovem de alcunha Lucas Dois Martelos pertencia ao bando de Dom Luis e se alistara em nosso bando tinha poucas semanas, aproveitando-se disso para informar nossos inimigos de cada passo que dávamos. Vigul lutou bravamente, mas caiu perante um bando maior e preparado para nossa tática. Quando eu e Diin avistamos o campo de batalha, entendemos rapidamente o que acontecera. Modificamos rapidamente nossa estratégia e buscamos salvar Vigul, mas foi inútil. Tudo que pudemos fazer foi preparar a retirada para que não fossemos todos exterminados. 


Foi uma noite triste. Não conseguimos recuperar o corpo de nosso líder sequer para que fosse queimado, subindo à morada dos deuses. Seus caminhos estavam fechados, como meu corpo. Desejávamos vingança, mas sem homens em número suficiente, seria o fim do bando. Era o momento de nomearmos um novo líder para que os planos de vingança pudessem ser feitos. Diin logo começou a falar e eu aguardava atentamente para apoiar seu nome como novo capitão do bando. Mas não foi o que aconteceu. Diin, para surpresa de todos, apoiou o nome de Baldorio Gaita para líder do bando. Sim. O novo líder do bando era eu. 

Enquanto recrutávamos mais homens para vingar Vigul, muito descobri sobre a história de Morte Gélida. Diin era de família nobre, pertencente a quase extinta Casa de Ferros. A Casa de Ferros possuía acordos especiais com o misterioso reino kobold Forjinfernal. O reino onde humanos não têm entrada se encontra no vulcão que recebeu o mesmo nome da nação reptiliana. O comércio com os pequenos diabos muito rendeu a Casa de Ferros, atraindo atenção de casas rivais. Alguém contratou o bando de Dom Luis para a chacina. Apenas Diin sobreviveu. Enquanto Diin me contava sua história, mal podia tirar os olhos dele. Sua firmeza e sua coragem acendiam em mim o que eu tinha de melhor. Depois da vingança, aceitaríamos apenas contratos justos. Nenhuma chacina covarde. Mas enquanto Dom Luis estivesse vivo, honra era um sentimento desnecessário.

Dez anos cavalgamos pelas pradarias recrutando homens e caçando Dom Luis. Diin nunca perdia sua obstinação. Era bonito de se ver seu desejo por justiça. A cada dia eu o admirava mais. Não era como ninguém que eu tivesse conhecido. E o dia do encontro chegou. Encontramos Dom Luis perto das margens do Rio Comprido. A batalha foi lenta e sangrenta, mas vencemos. Vi o belo sorriso no rosto de Morte Gélida quando cravou sua cimitarra no peito de Dom Luis. Sua família estava vingada. Vigul estava vingado. Corri para juntar-me ao seu lado, mas mais rápido que eu foi a flecha. Não sei de onde veio. Apenas a vi passando por mim e enterrando-se no corpo de Diin. Morte Gélida logo caiu ao chão. O guerreiro mais mortal já conhecido na luta entre as casas fora derrotado e não havia um vencedor para clamar pela glória. O desespero tomou conta de mim e atravessei a distância como um bruxo que desaparece no ar e reaparece a léguas de distância. Gritei por ajuda e fui atendido. Mãos de Cidra chegara junto a nós. Ele entendia a língua dos deuses e me ajudou a arrastar o corpo de Diin a um lugar fora da área de combate para que pudesse analisar o que poderia ser feito. Enquanto carregava o corpo de Diin, não sentia mais sua respiração. Parecia que o calor de seu corpo se tornava gélido como era nomeado. Sentia-me tonto. Mãos de Cidra nos conduziu ao local seguro. Jogou água no ferimento de Diin enquanto via meu rosto, embotado em lágrimas. Arrancou-lhe a flecha e o sangue encharcou-lhe a roupa. Ele disse que precisava ser rápido e pediu-me água. Ainda tonto, busquei meu cantil e lhe entreguei. 

Mãos de Cidra tirou a camisa de Diin com suas mãos brilhando em um tom azulado, enquanto falava palavras que eu não compreendia. Mas ao tirar a camisa de Diin, ele me olhou, assustado. Depois sorriu e disse que pela primeira vez me entendia. Na verdade, eu estava tão estupefato quanto ele. Enquanto suas mãos fechavam o ferimento de Diin, descobríamos juntos o maior segredo de Morte Gélida. Diin era uma mulher. 

Diin acordou algumas horas depois. Mãos de Cidra operara mais um milagre. Eu a abracei. Naquele tempo todo, fiquei ao seu lado. E pensava em tudo que eu sentia. Era fato que eu me apaixonara por Diin. Mas antes ou depois de saber? Não sei. Importa? 




Lutamos mais alguns anos lado a lado. Eu e Dora, o primeiro nome de Diin. Logo todos ficaram sabendo que o maior guerreiro vivo, Morte Gélida, que empunhava as cimitarras dançarinas, era uma mulher. Sua fama logo se espalhou e cada vez um número maior de mulheres foram aceitas nos bandos. Mas uma noite ela pediu que deixássemos as pradarias e restaurássemos sua Casa. Aceitei. Por isso hoje moro aqui.

Você me perguntou de como vendi minha alma? Não havia demônios ou fadas. Apenas uns círculos e umas palavras que não entendia. Usei uma adaga para furar minha mão e ofereci minha alma aos seres das lendas. Em troca, pedi que nenhuma arma perfurasse meu corpo. E nenhuma arma nunca me acertou. Por que pedi isso? Era jovem. Não entendia que poderia haver coisa pior. Dora acha que nunca vendi minha alma. Que não há venda sem comprador. E ri de minha história. Mas eu ainda estou aqui para contá-la enquanto inúmeros outros ainda morrem nesta guerra não declarada das casas. A grande noite virá, eu sei. Eu sinto. E talvez minha alma me seja cobrada pelos visitantes. Não só a minha, mas de todos estes tolos que não percebem que o inimigo está cada vez mais perto.



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