VENDENDO O CORPO DO DRAGÃO

ANALISANDO E PRECIFICANDO CARCAÇAS



Gregório olhou para o cadáver da criatura reptiliana em sua frente. Ela tem o tamanho de dois cavalos – pensou – ou talvez mais. Enquanto isso Bartolomeu estava tomando as medidas da criatura em palmos. Ao chegar em um determinado ponto, disse:

– Aqui. Roberta, me empreste sua faca mais afiada. Vamos tirar o coração desse bicho antes que o corpo fiquei frio.
– Dragões têm o corpo quente? Achei que fossem como lagartixas – respondeu Roberta.
– Verônica, me empresta uma faca você enquanto a Roberta fica filosofando sobre dragões e lagartos! – replicou Bartolomeu.
– Vá se f*, Bartô! – disse então Roberta, e gesticulou de forma ofensiva com a mão direita.

Verônica se aproximou com uma faca tirada de seu equipamento de caça e olhou de perto pela primeira vez a criatura. Ela era bem bonita. Nós matamos um dragão verde – ainda repetia para si mesmo. Então perguntou:


– Você acha que tem alguma coisa desse mostro que vá nos render uma boa quantia em ouro, Bartô?


O seu grupo derrotou aquela criatura icônica e começa a discutir entre si sobre cortá-la em pedaços ou colocá-la inteira na carroça para levá-la ao mercador mais próximo? ( Venomfang, estou olhando para você!). E agora? O que fazer?


Dragão Verde do Livro dos Monstros da 4ª Edição*

Nas últimas semanas acompanhei uma série de discussões a este respeito graças a um grupo que gostaria de vender o cadáver de um jovem dragão verde. Narradores e jogadores de diversos locais, baseados muitas vezes em quimeras (não a criatura mitológica ou os peixes holocéfalos e sim seu sentido figurado), davam seu próprio palpite sobre os valores, muitas vezes astronômicos e que causariam uma pequena inflação local. Então pensei eu: baseando-me no jogo e em alguns suplementos passados, como dar uma resposta mais palpável a esta questão?



Consultei então três livros para este caso específico: o Dungeon Master Guide, o Xanathar e o Draconomicon da edição 3.X. Eis abaixo os resultados.


Opção 1 - Regras do Xanathar

Segundo as regras contidas no Xanathar, qualquer item feito após derrotar algo de CR 8 é de incidência no máximo incomum.

Itens incomuns levam duas semanas de trabalho e os ingredientes custam 200 peças de ouro.

Se baseando somente nisso, o corpo do dragão poderia ser convertido em ingredientes mágicos num valor de NO MÁXIMO 200 peças de ouro.






Opção 2 - Outras edições

No Draconomicon da 3.X, na página 116, consta que um dragão de tamanho grande pode ser usado para produzir um gibão de peles para criaturas de tamanho até médio, porém, o uso das escamas por si só não configurariam em uma armadura mágica.

Para construir uma armadura completa de batalha seria necessário um dragão do maior tamanho possível (naquela edição seria Colossal, mas você poderia optar por usar o tamanho gigantesco, ou 4 criaturas de tamanho gigantesco, por exemplo). Uma "Banded Mail", que seria mais próxima da "scale mail" precisaria de um dragão enorme para ser feita, ou seja, as escamas não são em quantidade e tamanho necessários para produção do item mágico listado no livro do mestre (que é de incidência muito rara, o que coincidiria com as regras no Xanathar). Assim sendo, considerando como o principal recurso para a criação de um gibão de peles mágico +1, eu julgaria que o conjunto completo de escamas não chegaria a 1000 peças de ouro.

Segundo a mesma fonte, é possível fazer poções mágicas utilizando-se (não somente) sangue de dragão. O sangue de dragão verde, por exemplo, é um dos ingredientes usados em "elixires de sugestão". Esse elixir dura 10 minutos e uma vez durante esses dez minutos você pode usar a magia sugestão em um alvo. Se você for converter para esta edição, eu diria que, me baseando em "escrever pergaminhos" do Xanathar, seria um item raro (logo, o valor do sangue que seria trabalhado em laboratório para ser o componente principal do elixir não passaria de 500 peças de ouro).




Armas mágicas podem ser construídas a partir de garras e presas de um dragão. Um total de até 12 armas de uma mão (não versáteis) tamanho médio, perfurantes ou cortantes, a serem encantadas com esse material. Como ainda faltam todas as outras coisas para o encantamento (incensos mágicos, óleos, material para empunhadura, etc...), e elas serem usadas para encantamento de raridade incomuns, eu julgaria que são metade do material para produção, o que daria 100 peças de ouro cada, num total de 1.200 peças de ouro.


Tudo isso imaginando que existam compradores para tal, o que num cenário onde não haveria comércio mágico a princípio, quase não há compradores. Assumindo que o grupo consiga um comprador, o que não é óbvio e talvez exija uma atividade de "downtime" a parte, a somatória dos valores seriam: pela opção 1 - 200 peças de ouro ao total; e pela opção 2 - 2.700 peças de ouro. Isso tendo o comprador direto. Se você vai vender para alguém vender, pode tirar entre 40% a 70% do valor (um mestre bonzinho talvez tirasse a metade). Ou seja, 100 peças de ouro ou 1350 peças de ouro.

Então os jogadores usariam como atividade de "downtime" para achar alguém interessado, como nas regras para vender itens mágicos (Xanathar, página 133), e teriam que se virar nas questões de transporte e de preservação do material (essa segunda parte eu exigiria apenas alguns testes de Arcana, talvez um "skill challenge").

Mas você não listou todo o corpo. Apenas algumas partes... As demais partes tem uso tão obscuro (imaginando que mesmo pesquisando um pouco nada aparece) e são tão difíceis de armazenar e preservar que sem que houvesse uma aventura apropriada para tal, eu julgaria que não houve compradores interessados, simplesmente.




Para encontrar referências de partes de um dragão foi fácil? E se fosse um observador?

D&D é um jogo de mais de 40 anos. Pode apostar que em 90% dos casos, vai existir algo em algum lugar. Uma boa fonte para buscar esse tipo de coisa é o Livro dos Monstros de AD&D. Mas há uma miríade de fontes que podem ser interessantes: Lords of Madness, Volo Guide to All Things Magical, Enciclopedia Arcana, Libris Mortis e tantos outros. Além disso, se você usar a opção número 1, basta olhar no Xanathar e resolver a questão pensando no nível do desafio. E esta opção é excelente para mestres que gostam de limitar a quantidade de tesouro que o grupo possui.





Espero ter ajudado a decidir de improviso no momento em que esse tipo de situação surgir. Respire fundo, peça os testes que achar apropriado, faça um "skill challenge" e informe ao grupo que encontrar um comprador pode levar semanas. Se eles ainda assim estiverem interessados (e não há problema nisso), você terá tido tempo de pesquisar em seus livros ou de comprar um pdf na DMGuild para fazer aquela pesquisa em específico. Ou talvez de perguntar em um fórum, mas já tendo como base o tipo de palpite a ser descartado.

Ou não. O mundo é seu e seu mundo, suas regras. Se for seu desejo, faça com que o grupo fique milionário e coloque bandidos de todos os tipos atrás de suas posses. É para este momento (e não para diminuir uma habilidade de um personagem no meio da sessão ou para roubar nos dados "só um pouquinho") que existe a tal "regra de ouro".


Bons jogos!


* Imagem disponibilizada para uso em publicações pessoais pela DMGuild.

P.S.: Agora estou colaborando também com o site Aventureiros dos Reinos . Dê uma passadinha por lá!

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